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TRIBUNA DO NORTE   –  ESPORTE – 28.09.08

Machadão, a copa 2014 é aqui
COPA 2014 - Nova proposta inclui o estádio João Machado, reformado e adaptado às exigências da Fifa

Divulgação- Tribuna do Norte

28/09/2008 - Tribuna do Norte

Luiz Fernando Dal Pian - Repórter

Ao acompanhar as duas últimas Copas do Mundo de futebol, em 2002 no Japão e Coreia do Sul, e em 2006 na Alemanha, o telespectador ficou impressionado com a estrutura e tecnologia dos estádios onde foram realizados os jogos. Depois disso, quem imaginava que o nosso estádio Machadão, com todos os seus problemas estruturais, poderia um dia sediar jogos de uma Copa do Mundo? Poucos, é verdade. Porém, agora há motivos para acreditar que Natal, por meio de sua maior praça esportiva, pode receber clássicos em celebração ao maior evento do futebol mundial.

A idéia pode soar estranho para alguns, até porque desde o ano passado, quando Natal apresentou sua candidatura, a proposta seria a construção de um novo estádio totalmente moderno, em Parnamirim, previamente apelidado de “Estrelão”. Porém, na última semana, técnicos da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SEL) em parceria com outros órgãos da esfera estadual, chegaram a conclusão que seria mais viável e melhor para a proposta de candidatura adequar o antigo estádio João Machado às normas da Fifa.

O projeto arquitetônico foi desenvolvido pelo engenheiro e arquiteto Moacyr Gomes, dono também do projeto inicial de construção do estádio, em 1972. Caso aprovado pela Fifa, as reformas não serão poucas. A começar pela altura do gramado, que será reduzida de três à quatro metros. Isso possibilitará o avanço das arquibancadas para perto do campo. A proposta é que o estádio possa receber 46.300 pessoas sentadas, atendendo as recomendações da Fifa que requer um mínimo de 45.000.

“Para rebaixar o campo, seria necessário o trabalho de escavadeiras e caminhões para remoção de areia, para avançar as arquibancadas. Não há como aumentar a capacidade expandindo o estádio externamente. O trabalho precisa ser interno”, explica Gomes.

Em seguida, pretende-se ampliar a cobertura das arquibancadas, visando cobrir todo o público. Moacyr explica que não há como ofertar essa cobertura com a marquise atual, mas serão construídos quatro arcos que darão suporte a cobertura, além de suportar os novos sistemas de refletores, que serão posicionados de cima para baixo.

Moacyr Gomes aponta também uma nova alternativa para a cobertura do Machadão. “A nossa proposta inicial é de cobrir toda a estrutura de arquibancadas, mas dependendo das verbas que venhamos a conseguir, existe também a possibilidade de desenvolver uma cobertura completa, transparente, fechando o teto como um todo, sem atrapalhar a passagem da luz solar. Essa iniciativa foi desenvolvida com muito sucesso em países da Europa”.

Nos arredores do estádio, rampas de acesso, em formato circular, serão construídas para facilitar a entrada de idosos, evitando desta forma as escadas, além de funcionar como uma opção a mais de escoamento no término das partidas.

As exigências da Fifa não dão conta apenas das condições do estádio em si, mas também de todo o seu entorno. Para isso, seria necessário um trabalho forte de urbanização naquela área, segundo o Moacyr Gomes. O arquiteto destaca que será necessário a disponibilização de um estacionamento para, no mínimo, 6 mil carros e 2.300 ônibus. “Vamos precisar de toda a área que vai dos arredores do Machadão, passando pelo Cartódromo de Natal, até uma área que será cedida pelo Governo do Estado, próximo a entrada do Centro Administrativo. Lá planejamos abrigar os ônibus”. 

Moacyr Gomes disse que o projeto inicial para a adequação do Machadão será apresentado no Seminário das cidades sedes à Copa de 2014, que está ocorrendo neste fim de semana no Rio de Janeiro, mas que ainda tem três meses para finalizar o projeto final, quando serão apresentadas, definitivamente, as cidades sedes escolhidas.

De acordo com o secretário municipal de esportes, Ney Dias, será necessário a arrecadação de R$ 100 milhões a R$ 120 milhões, por meio de parcerias público-privadas. A recomendação é da própria Fifa, que reconhece o déficit orçamentário no Brasil  para o incentivo ao esporte.

“Buscaremos parecerias com empresas de todo o mundo, principalmente da Europa, que enxergam a Copa do Mundo como um grande negócio. Desta forma conseguiremos o financiamento por meio das parcerias internacionais, através do turismo, disponibilização de ingressos, etc”, explicou o secretário.

Sobre a decisão de reformar o Machadão, em vez de construir um novo estádio em Parnamirim, Ney Dias explicou que a proximidade do centro da cidade e o menor custo foram levados em conta. “Para a construção de um novo estádio, nos padrões de copa do mundo, teríamos que arrecadar quase R$ 400 milhões. Mas com a adequação do Machadão, gastaremos cerca de R$ 120 milhões”.

Quanto as chances de Natal, Ney Dias aponta o potencial turístico, com a rede hoteleira e de restaurantes estruturadas, além das belezas naturais como principais atrativos para convencer a Fifa e a CBF. Serão escolhidas de oito a doze cidades e algumas delas já estão virtualmente escolhidas, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Na região Nordeste, Salvador também aparece como forte candidata, até por questão de força política e deve ser uma das escolhidas. “Além de Salvador, que sabemos que está praticamente eleita, estamos na expectativa para concorrer com Fortaleza e Recife, além das cidades do Norte, Belém e Manaus. Sabemos que será difícil, mas estamos esperançosos”, finalizou Ney Dias.

Arquiteto do Estrelão é pego de surpresa

Dono do projeto arquitetônico do estádio previamente intitulado de “Estrelão”, Gley Karlys, recebeu com surpresa a notícia da escolha pela reforma do Machadão para ser o nosso estádio, na Copa de 2014. Gley afirmou que soube da escolha através da imprensa e que em momento algum foi informado da mudança de planos para Natal, como cidade sede, por parte do Governo do Estado, órgão que está oficialmente a frente da campanha da capital potiguar.

“O Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual de Energia e Assuntos Internacionais,  que tem como seu titular Jean-Paul Prates, não me comunicou nada quanto a escolha do Machadão. Isso até me surpreendeu, pois a governadora Wilma de Faria assinou um protocolo de intenções, juntamente com o prefeito de Parnamirim, Agnelo Alves, que também assinou o documento liberando o terreno para a construção do novo estádio. Tudo isso foi enviado à CBF”, lembrou Gley.

Mesmo mostrando certo desapontamento com a mudança repentina da proposta, Gley Karlys enalteceu a qualidade profissional de Moacyr Gomes, arquiteto do Machadão. “Não vi o projeto de Moacyr, mas todos conhecemos o trabalho desenvolvido por ele, que é um arquiteto excelente”. Porém, Gley Karlys mostrou preocupação com a viabilidade do projeto nos arredores do Machadão em atender as exigências da Fifa, no tocante ao estacionamento.

TRIBUNA DO NORTE   –  ECONOMIA– 28.09.08

Festival de Camarão pode ser realizado em Ponta Negra


A realização do 7º Festival de Camarão em Natal deverá ter como local a área do Exército na avenida engenheiro Roberto Freire, que poderá ser cedida pelo comando da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada. O secretário de Turismo de Natal, Fernando Bezerril visitou em companhia dos organizadores do evento, Roberto Sena, Carlos Lira e Walde Faraj, o general Paulo Sérgio Melo que comanda aquela unidade onde foi feito o pleito. O secretário Fernando Bezerril fez uma explanação ao comandante da 7ª Brigada de tornar  aquela área sob a jurisdição do Exército Brasileiro em local permanente para realizações de eventos turísticos, destacando que a avenida Roberto Freire é  um importante corredor turístico da capital potiguar. “Temos um local de fácil acesso  e se constitui numa grande e importante vitrine para exposições com finalidades turísticas, culturais, gastronômicas, e que o nosso Exército ganhará muito com a efetiva liberação da área.” 

O general Paulo Sergio Melo de Carvalho, que estava acompanhado dos seus assessores  Tenente Coronel Perazzi (Patrimônio) e do Capitão Clark (Comunicação Social) se mostrou interessado com a  exposição de motivos feitas pelo secretário Fernando  Bezerril, e prometeu todo empenho junto ao alto Comando Militar do Exercito em Recife, no sentido de que a parceria seja efetivamente celebrada. O Festival de Camarão  será realizado de 12 a 22 de novembro deste ano, e pretende renuir mais de 3 mil pessoas por noite.

 

TRIBUNA DO NORTE   –  NATAL – 28.09.08

Canoa Quebrada: a menina dos olhos de Aracati

TURÍSTICA - Obra do aeroporto de Aracati é a oportunidade de aumentar os lucros e melhorar a qualidade de vida

28/09/2008 - Tribuna do Norte

Esdras Marchezan - Repórter
Jornal de Fato

Fica a 18 quilômetros de distância da cidade de Aracati um dos pedaços de terra (e mar) mais importantes do município e do Estado do Ceará. Conhecida internacionalmente por suas belezas naturais, a vila de Canoa Quebrada responde por 90% de todo o turismo aracatiense, sendo responsável por grande parte da economia local. Em períodos de alta estação – que compreende os meses de julho e agosto e janeiro e fevereiro – o número de visitantes por dia chega a mil. No restante do ano, são pelos menos 250 turistas na vila de pescadores todos os dias. Entre eles muitos estrangeiros em férias pelo Brasil.

Muito antiga (surgiu em meados de 1600) Canoa Quebrada abraçou o turismo na década de 70, quando um grupo de hippies se juntou aos nativos da vila e criaram um ambiente paradisíaco que desperta até hoje o interesse internacional.

Seu crescimento acelerado provocou o medo de que ela pudesse se emancipar como município. “Por isso Aracati tratou de transformar Canoa em um bairro, uma vila, sempre ligado a cidade”, conta o presidente da Associação dos Empreendedores de Canoa Quebrada (ASDECQ), Luís Nogueira.

Filho de nativos da vila, Luís foi um dos que aproveitaram o potencial turístico para fazer negócios e construir uma carreira. Hoje ele e os outros donos de restaurante, barracas e pousadas discutem com rotina ações para melhorar a estrutura turística da vila e receber melhor os visitantes. “Entendemos que é preciso organização e união para fazer um trabalho agradável aos nossos visitantes. Nisso buscamos parcerias e cursos de qualificação para nossos funcionários, mostrando que o turismo é um dos setores que gera muito emprego, mas ainda é carente em investimentos”, comenta.

Para quem vive ou trabalha em Canoa Quebrada a construção do aeroporto de Aracati é uma oportunidade de aumentar os lucros e a qualidade de vida no lugar. “Já estamos num trabalho de estruturação e melhoramento do trade turístico porque sabemos que com esse aeroporto, a demanda de visitantes vai crescer muito”, explica o presidente da Associação dos Bugueiros de Canoa Quebrada (ABCQ), Beto Andrade.

A associação reúne 65 bugueiros qualificados para realizar passeios com os turistas, mostrando as belezas naturais da costa cearense. ‘Lourinho’ lembra bem de quando viu no passeio uma chance de ganhar dinheiro. “Criei o passeio em 1985, e vi que os turistas gostavam. A idéia foi ganhando corpo e hoje está um sucesso”, conta ele que já virou rosto conhecido mundialmente por causa das reportagens exibidas em televisões de todo o mundo.

O resultado disso tudo é um só: a satisfação do turista. O casal paulista Carlos e Tânia Manganotti, recém-casados, passaram uma semana em lua de mel, na praia cearense e são taxativos quando perguntam o que acharam: “Tudo muito bonito e a receptividade muito boa. Com certeza vamos voltar várias outras vezes”, explica Carlos.

Apesar do fluxo de veículos na Praia do Meio, comércio não aumenta

TRÂNSITO - Comércio não tem se beneficiado com o fluxo maior de veículos na área das praias urbanas

28/09/2008 - Tribuna do Norte

O fluxo de carros aumentou na Avenida Café Filho, na Praia do Meio, mas o movimento do comércio ficou estável depois da inauguração da Ponte Newton Navarro. A avaliação é comum entre os microempresários que mantêm negócios – artesanato, quiosques, bares – ao longo da via.

Inaugurada em novembro do ano passado, a Ponte Newton Navarro liga as praias do Forte (Zona Oeste) e Redinha (Zona Norte). Havia expectativa que o movimento nesses pontos aumentasse, beneficiando também os comerciantes instalados neles.

“Passa bem mais carro, principalmente no fim de semana, mas o pessoal não desce”, diz Janilton Belo da Silva, dono de um dos quiosques do calçadão da Praia do Meio.

Para Penha Mendonça, que tem um box no Centro de Artesanato da Café Filho, houve um incremento na quantidade de consumidores andando pela praia e pelo centro nos primeiros meses, mas agora o fluxo já voltou ao que era antes da ponte. “No começo tinha uma curiosidade, muita gente daqui de Natal vinha comprar, vinha para o restaurante  (do centro), mas depois que passou aquele primeiro momento, voltou ao normal”, diz a microempresária, referindo-se à atual clientela, composta mais de turistas, como era antes da ponte.

Já outro microempresário, Moacir Santos, que tem uma loja de lanches e produtos regionais na avenida, destaca que o movimento de natalenses não aumentou porque, na opinião dele, são poucas as pessoas que moram na Zona Norte e trabalham em Natal que usam diariamente a Ponte Newton Navarro: “É mais pra turista mesmo”.

Dentre os seis entrevistados pela reportagem na manhã de ontem, somente João Daniel de Medeiros disse que o movimento em seu negócio melhorou depois da inauguração da ponte. Ele é locatário do único posto de combustíveis da Café Filho e, portanto, beneficiário direto da intensificação do vai-e-vem de carros na via. Contudo, ele diz que o incremento não foi o esperado. “O movimento maior mesmo é nessa via daqui detrás”, diz João Daniel, falando da Avenida 25 de Dezembro, que é mão-única e via mais rápida – praticamente obrigatória - para quem vem da ponte em direção à Via Costeira.

Calçadão

Em contraste à imponência da ponte, os equipamentos urbanos das praias dos Artistas e do Meio carecem de manutenção. A Ponta do Morcego não tem reparos e oferece perigo de desabamento e insegurança. Parte do calçadão está destruída pela ação do mar – o problema se arrasta desde o fim do ano passado e, apesar de as obras estarem em curso, ainda não foi resolvido.

Além dos banhistas e passantes, donos de quiosques que ficavam nas áreas atingidas foram prejudicados. Francisco Soares reclama que foi relocalizado para um quiosque sem energia ou água. “A água tem que pegar no posto e a energia só fazendo gato”, conta, “assim fica muito difícil trabalhar”.

 

 

DIÁRIO DE NATAL    –  ECONOMIA – 28.09.08

Falta de transporte gera problema no setor

Nas noites de maior movimento, quando estão na escala mensal de trabalho noturno no Camarões, o operador de caixa Ricardo Dilson Faria e o auxiliar de cozinha Marcos Antônio Nascimento dormem no restaurante. Espalham colchonetes pelo salão e ali tiram alguns cochilos até quando o primeio raio de sol aparece, por volta das 5h. É que de madrugada, em torno de 1h, quando terminam o expediente, os funcionários não encontram ônibus nem opcionais para voltar para suas casas, em Igapó e no Planalto, respectivamente. A realidade dos dois funcionários do Camarões é a mesma de milhares de pessoas que trabalham em hotéis, pousadas, bares e restaurantes de Natal. A ineficiência do sistema de transporte, que, segundo eles, não cumpre os horários nem disponibiliza linhas acessíveis, é a grande causadora do problema. Algumas empresas optam por oferecer locomoção especial para os colaboradores que trabalham até mais tarde, mas por não ser uma obrigação trabalhista, fica a cargo do empregador decidir.

No caso do Camarões, os funcionários recebem o vale-transporte conforme determina a lei, mas costumam encontrar muitas dificuldades para voltar para casa nas noites em que o restaurante tem maior pico de clientes. ‘‘Depois das 23h já não tem mais ônibus e é muito difícil pegar uma van. A gente vai se virando...às vezes pega carona, outras vezes dorme no restaurante ou fica na rua mesmo’’, conta Faria, que já chegou a ficar de 1h até 5h na calçada da Avenida Engenheiro Roberto Freire esperando o dia amanhecer para então pegar o ônibus de volta pra casa. Dormir no restaurante é sempre a última opção considerada pelos funcionários. Além do desconforto, eles não gostam de passar a noite longe da família. Cerca de cinco pessoas que trabalham no Camarões no horário noturno e não têm carro ou moto passam por essa situação. Como boa parte reside na zona Norte, não há mais ônibus nem opcionais disponíveis na hora em que saem do trabalho.

Segundo o operador de caixa, nunca foi ventilada entre os empregados a possibilidade de firmar um acordo para que os donos do restaurante lhes ofereçam um transporte no horário especial. ‘‘Eu acho que o problema não é da nossa empresa, mas sim dos empresários de ônibus. O restaurante dá toda a estrutura pra gente ir pra casa, recebemos vale transporte, mas os ônibus não são disponibilizados. O problema não é nos restaurantes e bares, é o governo que não está disposto a ajudar quem trabalha nesse setor’’, critica. Faria já teve moto e hoje possui um carro, mas como já foi assaltado mais de uma vez, prefere deixar o veículo na garagem.

A situação de Nascimento é ainda mais grave: quando consegue pegar um opcional de madrugada, desce no Natal Shopping, entra em um ônibus da linha 33 e salta na altura da linha do trem, no Planalto, longe cerca de quatro quilômetros de casa. ‘‘Muitas vezes a própria viatura da polícia já me deu carona até em casa’’, conta o auxiliar de cozinha. Os cochilos no salão do restaurante já foram muitos durante o tempo que passou trabalhando à noite. Mas como a empresa opera com escala de funcionários, eles revezam entre um mês trabalhando de dia e um mês no período noturno. Na opinião de Nascimento, grande parte do problema poderia ser resolvido se mais ônibus fossem colocados nas ruas depois de meia noite.

A empresária Vânia de Araújo Bezerra, uma das sócias do Camarões, diz que uma de suas principais dificuldades hoje é ter que lidar com o cartão eletrônico criado pelas empresas de ônibus. Como o restaurante não trabalha com transporte no horário especial, ela paga o vale aos funcionários, mas a maioria deles, devido ao expediente noturno, precisa pegar opcionais, que não aceitam os cartões. ‘‘Agora nós estamos dando dinheiro em espécie para os nossos funcionários poderem pagar o alternativo. Fomos forçados a pagar por fora’’, acrescenta. Um dia antes de nossa reportagem visitar o local, 11 pessoas haviam solicitado à empresa dinheiro a mais para poder pegar os alternativos.

Vânia argumenta que seria invivável para o Camarões ter um veículo exclusivo para transportar os empregados que trabalham até mais tarde. Do corpo de 80 funcionários que trabalham no restaurante da Avenida Engenheiro Roberto Freire, cerca de 60 operam à noite. ‘‘Temos funcionários que saem de meia noite, assim como outros, da limpeza, que dependendo do movimento, só são liberados depois das 2h. É inviável um ter que ficar esperando o outro só para pegar o transporte e também a diversidade de residência deles é muito grande, varia entre Redinha, Macaíba, Nova Parnamirim, Panatis e Igapó’’, justifica. Sem alternativa, alguns funcionários vão para o salão com ar condicionado, espalham os pequenos colchões e dormem até a hora de o primeiro ônibus passar.

Louise Aguiar


Alguns hotéis, pagam táxis para funcionários

Não é todos os dias que os funcionários do Hotel Escola Senac-Barreira Roxa precisam ficar até de madrugada no trabalho, mas quando acontece, a gerente geral Roberta Barreto logo se encarrega de chamar um táxi para levar os empregados até suas residências. Um dos principais pólos turísticos do estado, o Barreira Roxa sedia inúmeros eventos ao longo do ano e é nessas ocasiões que garçons e cozinheiros ficam até mais tarde no hotel.

A gerente conta que quando os eventos são programados, a van do Senac é disponibilizada para levar os funcionários em casa. Mas no caso de imprevistos ou um grande fluxo de hóspedes, a administração do hotel precisa recorrer ao táxi. Uma opção que onera - e muito - os gastos do estabelecimento. Segundo Roberta, uma média de R$ 500 por mês são desembolsados para este fim. ‘‘Na Via Costeira só temos ônibus até às 23h, então quando não usamos a van, temos que pagar táxi mesmo’’, comenta.

Durante esta semana, em um dos dias que o hotel sediou um evento, a gerente ficou com 12 pessoas que saíram bem depois das 22h, horário em que um dos turnos termina. Geralmente garçons, auxiliares de cozinha, recepcionistas e camareiras costumam utilizar o serviço do transporte especial. Um acordo com uma cooperativa de táxi foi firmado e os funcionários recebem um vaucher para pegar o transporte.

Segundo Roberta, o custo para manter esse serviço é altíssimo. Somente de janeiro a agosto deste ano, R$ 3.941,00 foram gastos com táxi para os funcionários. ‘‘O Barreira Roxa é um dos únicos hotéis da Via Costeira que não tem um serviço de van próprio. Pagar táxi é dar um tiro no pé, mas a gente paga’’, acrescenta, contando que já aconteceu de o hotel pagar R$ 160 para um motorista deixar três colaboradores em bairros como Felipe Camarão, Gramoré e São Gonçalo em uma só noite.
Restaurantes optam por alugar vans particulares
Desde quando abriu as portas em Natal, há dez anos, o Buongustaio oferece transporte especial para os funcionários que trabalham até mais tarde. No início, conforme conta uma das sócias, Flávia Santarosa, a empresa tinha uma van com motorista próprio, mas devido aos gastos, resolveu terceirizar o serviço com o passar do tempo. Hoje, o restaurante aluga uma kombi, que chega ao local assim que o estabelecimento fecha (à meia noite de segunda a quinta e sexta e sábado à 1h) e espera até o último funcionário sair.

O custo disso gira em torno de R$ 1.080,00 por mês - R$ 270,00 por semana - e uma média de oito funcionários precisam utilizar o serviço. ‘‘É muito caro, mas é uma maneira que a gente tem de satisfazer o funcionário. Às vezes ele sai de três horas da manhã e vai ficar na rua?’’, comenta Flávia, emendando que nada é descontado do salário dos empregados pelo transporte especial. No Buongustaio, os funcionários que utilizam o serviço ainda recebem o vale equivalente à ida para o trabalho e aqueles que têm carro ou moto recebem o benefício relativo à ida e à volta.

Segundo a empresária, os colaboradores nunca precisaram dormir no restaurante ou ficar lá até o dia amanhecer. São 61 funcionários nos dois restaurantes - Petrópolis e Midway Mall -, dos quais pelo menos 16 trabalham no período noturno na unidade de Petrópolis. A maioria deles reside na zona Norte e alguns em Mãe Luiza, mas a kombi se encarrega de deixar cada um na porta de casa.

A opção pelo aluguel de um transporte maior veio depois da constatação de que pagar táxi individual saía muito mais caro. A distância entre o restaurante e a residência dos funcionários e o próprio horário avançado que eles costumam sair do estabelecimento encarecia esse tipo de transporte. ‘‘Todos os dias a kombi está lá e espera todos terminarem o serviço para poder sair’’, acrescenta Flávia.
Dormir no local de trabalho é “comum”
O presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio Hoteleiro e Similares do RN (Seches), Sandoval Lopes, corrobora o que alega Paulo Gallindo. Embora algumas empresas natalenses dêem transporte especial para os funcionários, a única lei existente é a do vale-transporte. Hoje, o maior problema destacado por ele é, também, a substituição dos vales pelo cartão eletrônico. ‘‘O trabalhador que sai de 1h só tem como pegar opcional, mas eles não aceitam o cartão. Então ele fica condicionado a ficar na empresa, isso quando o empregador permite’’, diz.

Para Lopes, o fato de ter que dormir no salão de bares ou restaurantes é um ‘‘absurdo’’, mas se tornou algo comum no mercado natalense. O próprio presidente do sindicato já passou por isso. Em 1993, quando trabalhava no Chaplin, não tinha ônibus de madrugada que fosse para a zona Norte. A única alternativa era pernoitar no restaurante até as primeiras horas da manhã. ‘‘Tornou-se algo normal, mas muito prejudicial ao trabalhador’’, emenda. Segundo Lopes, essa realidade fere os direitos humanos do colaborador e é um caminho para o que a Justiça do Trabalho chama de ‘‘assédio moral’’.

Tendo assumido a presidência da entidade em junho deste ano, Lopes ainda tentar organizar a casa para então partir para os pleitos do setor. A intenção dele é sentar com a classe patronal do segmento e chegar a um acordo para solucionar o problema. Desde a mudança do vale transporte para o cartão eletrônico, o sindicato já recebeu várias denúncias, mas nenhuma delas reclamava sobre dormir no local de trabalho.

No entanto, o pleito maior dos empregados no setor não irá se dirigir diretamente aos empresários. Eles querem, antes de tudo, que o sistema de transporte natalense melhore. ‘‘Há cerca de seis anos o sindicato colocou um corujão para os trabalhadores, mas os próprios empresários de ônibus proibiram de circular. Era de graça, o sindicato bancava, mas as empresas não liberaram a concessão’’, relembra, acrescentando que, já que um veículo independente não pode circular, que pelo menos outros ônibus atendam a demanda.

O sindicato conta hoje com 2.100 associados, dos quase 60 mil empregados que trabalham no ramo de hotelaria, bares e restaurantes no Rio Grande do Norte. O presidente pretende, em breve, enviar ofícios aos órgãos competentes solicitando incremento nas linhas de ônibus, além de exigir que os veículos cumpram os horários do corujão. ‘‘Vamos tentar conseguir um aditivo ness sentido para incluir na nossa próxima convenção, em maio, para se tornar lei’’, promete.
STTU quer dialogar com empresários do setor
Atualmente, cinco linhas de ônibus operam em Natal no horário conhecido como ‘‘corujão’’. Os veículos passam por bairros como Pajuçara, Parque das Dunas, Brasil Novo, Redinha, Santarém, Gramoré, Nova Natal, Parque dos Coqueiros, Via Costeira, Ponta Negra, Planalto, Cidade Satélite, Petrópolis, Praia do Meio, Felipe Camarão e Bernardo Vieira, fazendo integração na estação de transferência da Ribeira. Segundo a titular da Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito Urbano (STTU), Elequicina Santos, todas as linhas têm funcionado normalmente.

‘‘Elas estão funcionando sim, até porque o pessoal dos hotéis nos disse que a integração com a estação da Ribeira estava resolvendo todos os problemas’’, rebate a secretária. De acordo com Elequicina, ela desconhece que tenha chegado à STTU qualquer reclamação nesse sentido, principalmente sobre o não cumprimento de horário das linhas. Mas se mostrou aberta a ouvir os pleitos dos empresários do setor de hotéis, bares e restaurantes, bem como dos funcionários que trabalham nestes segmentos, que pedem um número maior de veículos circulando de madrugada. ‘‘Me coloco à disposição deles para falar diretamente comigo. Se eles quiserem nós marcamos uma reunião, sentamos com a fiscalização para ver a demanda e a necessidade deles por mais linhas. Com certeza a STTU vai fazer essa gestão junto com as empresas de ônibus’’, garantiu.

No ano passado, dentro do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado entre o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Natal (Seturn), a STTU e o Ministério Público, ficou garantida a disponibilização de cinco linhas para fazer o transporte no horário do ‘‘corujão’’. Em novembro de 2007, elas começaram a operar. Segundo a secretária-adjunta Lúcia Rejane de Almeida, a integração com a estação de transferência da Ribeira facilitou a vida daqueles que trabalham nesse horário. Conforme relata Lúcia, de início a demanda pelo corujão era muito baixa, até pela falta de conhecimento da população de que o serviço realmente existia. ‘‘Mas com o tempo o corujão foi se consolidando e fora esse serviço, existem os opcionais que saem de Ponta Negra para várias áreas da zona Norte’’, destaca. Mas segundo os usuários que dependem do transporte, os ônibus não passam no horário marcado e os opcionais não costumam cumprir o percurso estabelecido, além de não serem nem um pouco confiáveis. ‘‘Eu não confio nos motoristas dessas vans”, diz Ricardo Farias.
Única obrigação das empresas é com o vale-transporte
Segundo o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares do RN, Paulo Gallindo, não há uma lei que obrigue as empresas a fornecerem transporte especial para os funcionários que trabalham de madrugada. ‘‘A única obrigação prevista em lei é o vale-transporte’’, frisa. No próprio Chaplin, complexo de propriedade de Gallindo, os colaboradores não contam com um veículo exclusivo para levá-los em casa, apenas recebem o que lhes é de direito. A grande insatisfação do empresariado, acrescenta ele, é com as poucas linhas de ônibus disponíveis depois de meia noite. ‘‘Devíamos ter uma malha de transporte melhor, com mais opções, principalmente de madrugada que as pessoas precisam ter segurança’’, opina.

De acordo com o presidente do sindicato, as empresas podem escolher entre dar o vale transporte ou proporcionar um meio exclusivo de levar os colaboradores em casa. Nesta situação, elas só poderiam abater até 6% do salário do trabalhador. O que a entidade tem feito, emenda Gallindo, é pleitear junto a STTU e às empresas de ônibus, sempre que há uma demanda, novas linhas. Mas depois de meia noite, os veículos do corujão só passam de uma em uma hora e por isso, muita vezes, os funcionários preferem dormir no local de trabalho.

A reportagem do Diário de Natal resolveu apurar as condições de locomoção desses trabalhadores depois de receber a informação de que alguns bares e restaurantes de Natal estavam descumprindo acordos coletivos firmados e não davam condições de seus funcionários voltarem para casa de madrugada, o que os obrigava a dormir nos estabelecimentos. De acordo com o presidente do sindicato, esses acordos não passam pela entidade e são frutos de entendimento entre a empresa e os empregados. ‘‘Mas se o empresário assinou um acordo garantindo o transporte e não está dando, ele está sendo infrator. Se uma das partes não estiver cumprindo com o convencionado, esse contrato pode ser denunciado’’, alerta.